Uma
reflexão sobre o Shoah
Comissão Pontifícia para as Relações Religiosas com o Judaísmo
Apresentação
"Uma indelével mancha na história do século
que está para concluir-se"
O Documento da Comissão para as Relações Religiosas com o Judaísmo,
"NÓS RECORDAMOS: uma reflexão sobre o Shoah", foi apresentado oficialmente
na manhã de 16 de março aos jornalistas acreditados junto da Santa
Sé. A cerimônia foi realizada no auditório "João Paulo II", Sala de
Imprensa da Santa Sé; nela estiveram presentes o Cardeal E. Idris
Cassidy,
D. Pierre Duprey e o padre Remi Hoeckman, OP, respectivamente presidente
do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos e da
Comissão para as Relações com o Judaísmo, vice-presidente e secretário
da mencionada Comissão. Publicamos a seguir a Carta do Santo Padre,
que serve de premissa para o Documento, e o texto integral do mesmo
Documento, cujo original é em inglês.
Ao Senhor Cardeal EDWARD IDRIS CASSIDY, Presidente da Comissão para
as Relações Religiosas com o Judaísmo
Em muitas ocasiões durante meu Pontificado evoquei, com profundo pesar,
os sofrimentos do povo judeu durante a Segunda Guerra Mundial. O crime
que ficou conhecido como o Shoah permanece uma indelével mancha na
história do século que está para concluir-se.
Ao prepararmo-nos para iniciar o terceiro milênio da Era cristã, a
Igreja está consciente de que a alegria de um Jubileu é sobretudo
uma alegria fundada sobre o perdão dos pecados e sobre a reconciliação
com Deus e com o próximo. Por isso, ela encoraja seus filhos e filhas
a purificarem seus corações mediante o arrependimento pelos erros
e infidelidades do passado. Ela os chama a pôr-se humildemente diante
de Deus e a examinar-se sobre a responsabilidade que também eles têm
pelos males de nosso tempo.
É minha ardente esperança que o documento "Nós recordamos: uma Reflexão
sobre o Shoah", preparado sob a guia de Vossa Eminência pela Comissão
para as Relações Religiosas com o Judaísmo, ajude verdadeiramente
a sanar as feridas das incompreensões e das injustiças do passado.
Possa ele habilitar a memória para desempenhar seu necessário papel
no processo de construção de um futuro no qual a indizível iniqüidade
do Shoah jamais seja possível. Oxalá o Senhor da história guie os
esforços de católicos e judeus, e de todos os homens e mulheres de
boa vontade, afim de que trabalhem juntos para um mundo de autêntico
respeito pela vida e dignidade de cada ser humano, pois todos foram
criados à imagem e semelhança de Deus.
Vaticano, 12 de março de 1998.
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Documento
A Tragédia do Shoah e o Dever da Memória
O que Devemos Recordar
As Relações entre Judeus e Cristãos
O Anti-Semitismo Nazista e o Shoah
Olhando Juntos para um Futuro Comum
Notas de Rodapé
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A Tragédia do Shoah e o Dever da Memória
O século XX está se concluindo rapidamente e já desponta a aurora
de um novo milênio cristão. O bimilenário do nascimento de Jesus Cristo
chama todos os cristãos e convida, na realidade, cada homem e cada
mulher a procurar descobrir no fluxo da história os sinais da Divina
Providência em ação e os modos como a imagem do Criador presente no
homem foi ofendida e desfigurada.
Esta reflexão diz respeito a um dos principais setores em que os católicos
podem tomar a peito seriamente o apelo que João Paulo II lhes dirigiu
na Carta Apostólica Tertio milenio adveniente: "Assim, quando o segundo
milênio já se encaminha para seu termo, é justo que a Igreja assuma
com maior consciência o peso do pecado de seus filhos, recordando
todas as circunstâncias em que, no arco da história, eles se afastaram
do espírito de Cristo e de seu Evangelho, oferecendo ao mundo, em
vez do testemunho de uma vida inspirada nos valores da fé, o espetáculo
de modos de pensar e agir que eram verdadeiras forma de antitestemunho
e de escândalo"1.
Este século foi testemunha de uma indizível tragédia, que jamais poderá
ser esquecida: a tentativa do regime nazista de exterminar judeu,
com o conseqüente morticínio de milhões de judeus. Homens e mulheres,
adultos e jovens, crianças e recém-nascidos, só porque eram de origem
judaica, foram perseguidos e deportados. Alguns foram trucidados imediatamente,
outros foram humilhados, maltratados, torturados, completamente privados
de sua dignidade humana e, por fim, mortos. Dos que foram internados
nos campos de concentração, pouquíssimos sobreviveram, mas ficaram
aterrorizados durante toda a vida. Esse foi o Shoah: um dos principais
dramas da história deste século, um fato que ainda hoje nos diz respeito.
Diante deste horrível genocídio, em que os responsáveis das nações
e as próprias comunidades judaicas julgaram difícil acreditar no momento
em que era perpetrado sem misericórdia, ninguém pode ficar indiferente,
principalmente a Igreja, em virtude de seus vínculos estreitíssimos
de parentesco espiritual com o povo judeu e da recordação que ela
nutre das injustiças do passado. A relação da Igreja com o povo judeu
é diferente da que entretece com qualquer outra religião2. Não se
trata apenas de retornar ao passado. O futuro comum dos judeus e cristãos
exige que nos recordemos, porque "não há futuro sem memória"3, a própria
história é memória futuri.
Ao dirigir esta reflexão a nossos irmãos e irmãs da Igreja católica
espalhados pelo mundo, pedimos a todos que se unam a nós na reflexão
sobre a catástrofe que atingiu o povo judeu e sobre o imperativo moral
de fazer com que o egoísmo e o ódio nunca venham a crescer a ponto
de semear sofrimentos e morte4. De modo particular, pedimos a nossos
amigos judeus, "cujo destino terrível se tornou símbolo da aberração
a que pode chegar o homem quando se volta contra Deus"5, que predisponham
seu coração a escutar-nos.
O que Devemos Recordar
Ao dar seu singular testemunho do Santo de Israel e da Torah, o povo
judeu sofreu demasiadamente em diversos tempos e em muitos lugares.
Mas o Shoah foi, sem dúvida, o pior sofrimento de todos. A inumanidade
com que os judeus foram perseguidos e massacrados neste século supera
a capacidade de expressão das palavras. E tudo apenas porque eram
judeus.
A própria grandeza do crime suscita muitas questões. Historiadores,
sociólogos, filósofos, políticos, psicólogos e teólogos procuram conhecer
mais a realidade e as causas do Shoah. Muitos estudos especializados
ainda devem ser feitos, mas semelhante evento não pode ser plenamente
medido apenas por meio dos critérios ordinários da investigação histórica.
Ele evoca uma "memória moral e religiosa" e, principalmente entre
os cristãos, uma reflexão muito séria sobre as causas que o provocaram.
O fato de o Shoah ter acontecido na Europa, isto é, em países de longa
civilização cristã, apresenta a questão do relacionamento entre a
perseguição nazista e as atitudes dos cristãos, ao longo dos séculos,
em relação aos judeus.
As Relações entre Judeus e Cristãos
A história das relações entre judeus e cristãos é conturbada. O Santo
Padre João Paulo II reconheceu isso em seus repetidos apelos aos católicos
para considerarem nossa atitude com relação ao povo judeu6. Com efeito,
o balanço dessas relações durante esses dois milênios foi bastante
negativo7.
No alvorecer do cristianismo, depois da crucifixão de Jesus, surgiram
contrastes entre a Igreja primitiva e os chefes dos hebreus e o povo
hebreu, quem, em obediência à Lei, às vezes se opuseram com violência
aos pregadores do Evangelho e aos primeiros cristãos. No império romano,
que era pagão, os hebreus eram legalmente protegidos pelos privilégios
que o imperador lhes garantia, e num primeiro momento as autoridades
não fizeram distinção entre as comunidades hebraicas e cristãs. Muito
cedo, porém, os cristãos foram vítimas da perseguição do Estado. Quando
os próprios imperadores se converteram ao cristianismo, continuaram
garantindo privilégios aos hebreus. Mas grupos exacerbados de cristãos,
que atacavam os templos pagãos, em alguns casos fizeram o mesmo com
as sinagogas, não sem sofrerem influência de certas interpretações
errôneas do Novo Testamento referentes ao povo hebreu em seu conjunto.
"No mundo cristão – não digo da parte da Igreja enquanto tal – circularam
por muito tempo interpretações errôneas e injustas do Novo Testamento
sobre o povo judeu e sua presumível culpa, gerando sentimentos de
hostilidade contra esse povo".8 Essas interpretações do Novo Testamento
foram total e definitivamente rejeitadas pelo Concílio Vaticano II9.
Não obstante a pregação cristã do amor para com todos, compreendidos
os próprios inimigos, a mentalidade prevalecente no decurso dos séculos
penalizou as minorias e os que eram de algum modo "diferentes". Os
sentimentos de antijudaísmo em alguns ambientes cristãos e a divergência
existente entre a Igreja e povo judeu conduziram a uma discriminação
generalizada, que às vezes redundava em expulsões ou tentativas de
conversões forçadas. Em grande parte do mundo "cristão", até o final
do século XVIII, os que não eram cristãos nem sempre gozaram de um
status jurídico plenamente garantido. Apesar disso, os judeus espalhados
por todo o mundo cristão permaneceram fiéis às suas tradições religiosas
e aos costumes que lhes são próprios. Por isso, foram considerados
com certa suspeita e desconfiança. Em tempos de crise, como carestias,
guerras e pestes ou tensões sociais, a minoria judaica foi muitas
vezes tomada como bode expiatório, tornando-se vítima de violências,
saques e até mesmo de massacres.
Entre o final do século XVIII e o início do século XIX, os judeus
tinham atingido uma posição de igualdade em relação aos outros cidadãos
na maioria dos Estados, e certo número deles chegou a desempenhar
papéis influentes na sociedade. Mas nesse mesmo contexto histórico,
em particular no século XIX, surgiu um nacionalismo exasperado e falso.
Num clima de rápida transformação social, os judeus muitas vezes foram
acusados de exercer uma influência desproporcional em relação a seu
número. Começou então a difundir-se em vários níveis, na maior parte
da Europa, um antijudaísmo essencialmente mais socio-político que
religioso.
No mesmo período, começaram a aparecer teorias que negavam a unidade
da raça humana, afirmando uma originária diferença das raças. No século
XX, o nacional-socialismo na Alemanha usou essas idéias como base
pseudocientífica para uma distinção entre as chamadas raças nórdico-arianas
e as presumíveis raças inferiores. Além disso, uma forma extremista
de nacionalismo foi estimulada na Alemanha pela derrota de 1918 e
pelas condições humilhantes impostas pelos vencedores, com a conseqüência
de que muitos viram no nacional-socialismo uma solução para os problemas
do país e, por isso, cooperaram politicamente com este movimento.
A Igreja na Alemanha respondeu condenando o racismo. Essa condenação
apareceu pela primeira vez na pregação de alguns membros do clero,
no ensinamento público dos bispos católicos e nos escritos de jornalistas
católicos. Já em fevereiro e março de 1931, o cardeal Bertram de Wroclaw,
o cardeal Faulhaber, os bispos da Baviera, os bispos da Província
de Colônia e os da Província de Friburgo publicaram cartas pastorais
que condenavam o nacional-socialismo com sua idolatria da raça e do
Estado10 . No mesmo ano em que o nacional-socialismo chegou ao poder,
1933, os famosos sermões do advento do Cardeal Falhaber, aos quais
assistiram não só católicos, mas também protestantes e judeus, tiveram
expressões de claro repúdio pela propaganda nazista anti-semita11.
A seguir à Krishlinacht, Bernard Lichtenberg, prepósito da Catedral
de Berlim, elevou orações públicas pelos judeus. Ele morreu depois
em Dachau e foi declarado beato.
Também o Papa Pio XI condenou o racismo nazista de modo solene na
Encíclica Mit brennender Sorge12, lida nas igrejas da Alemanha no
Domingo da Paixão de 1937, iniciativa que provocou ataques e sanções
contra membros do clero. No dia 6 de setembro de 1938, ao dirigir-se
a um grupo de peregrinos belgas, Pio XI afirmou: "O anti-semitismo
é inaceitável. Espiritualmente, todos somos semitas" 13. Pio XII,
desde sua primeira Encíclica Summi Pontificatus14, de 20 de outubro
de 1939, pôs-se de sobreaviso contra as teorias que negavam a unidade
da raça humana e contra a deificação do Estado, o que ele previa que
conduziria a uma verdadeira "hora das trevas" 15
O Anti-Semitismo Nazista e o Shoah
Não se pode ignorar a diferença que existe entre o anti-semitismo,
baseado em teorias contrárias ao constante ensinamento da Igreja sobre
a unidade do gênero humano e a igual dignidade de todas as raças e
de todos os povos, e os sentimentos de suspeita e de hostilidade que
perduram há séculos, a que chamamos antijudaísmo, dos quais, infelizmente,
também cristãos foram culpados.
A ideologia nacional-socialista foi mais além, pois recusou reconhecer
qualquer realidade transcendente como fonte da vida e critério do
bem moral. Como conseqüência, um grupo humano e o Estado com o qual
ele se identifica arrogaram-se um valor absoluto e decidiram cancelar
a própria existência do povo judeu, povo chamado a dar testemunho
do único Deus e da Lei da Aliança. Teologicamente, não podemos ignorar
o fato de muitos membros do partido nazista não só demonstraram aversão
à idéia de uma Divina Providência atuante nas vicissitudes humanas,
mas também deram prova de um ódio específico em relação a Deus mesmo.
Logicamente, essa atitude levou ainda à rejeição do cristianismo e
ao desejo de ver destruída a Igreja ou, pelo menos, submetida aos
interesses do Estado nazista.
Foi essa ideologia extrema que se tornou a base das medidas empreendidas,
primeiro para desarraigar os judeus de suas casas e, depois, para
exterminá-los. O Shoah foi a obra de um típico regime moderno neopagão.
Seu anti-semitismo tinha as raízes fora do cristianismo e, ao buscar
as próprias finalidades, não hesitou em opor-se à Igreja perseguindo
também seus membros.
Mas devemos nos perguntar se a perseguição do nazismo contra os judeus
não foi facilitada por preconceitos antijudaicos, presentes nas mentes
e nos corações de alguns cristãos. O sentimento antijudaico porventura
tornou os cristãos menos sensíveis, ou até indiferentes, às perseguições
lançadas contra os judeus pelo nacional-socialismo quando chegou ao
poder?
Qualquer resposta a esta pergunta deve levar em conta o fato de que
estamos tratando da história de atitudes e modos de pensar de pessoas
submetidas a múltiplas influências. Mais ainda, muitos ignoram totalmente
a "solução final" que estava para ser tomada contra todo um povo;
outros tiveram medo por si mesmos e por seus entes queridos; alguns
tiraram proveito da situação; outros, por fim, foram movidos pela
inveja. Uma resposta deve ser dada a cada caso e, para isso, é necessário
saber o que precisamente motivou as pessoas numa situação específica.
No início, os chefes do Terceiro Reich procuraram expulsar os judeus.
Infelizmente, os governos de alguns países ocidentais de tradição
cristã, inclusive da América do Norte e da América do Sul, hesitaram
em abrir suas fronteiras aos judeus perseguidos. Ainda que não pudessem
prever até onde iriam os hierarcas nazistas em suas intenções criminosas,
os chefes dessas nações tinham conhecimento das dificuldades e perigos
a que estavam expostos os judeus que viviam nos territórios do Terceiro
Reich. O fechamento das fronteiras naquelas circunstâncias à imigração
judaica, devido à hostilidade ou à suspeita antijudaica, à covardia
ou à estreiteza de visão política ou ao egoísmo nacional, constitui
um grave peso de consciência para as autoridades em questão.
Nas terras em que o nazismo empreendeu a deportação em massa, a brutalidade
que acompanhou esses movimentos forçados de pessoas inermes deveria
suscitar a suspeita do pior. Os cristãos ofereceram toda a assistência
possível aos perseguidos e em particular aos judeus?
Muitos o fizeram, mas outros não. Aqueles que ajudaram a salvar o
maior número possível de judeus, a ponto de pôr suas vidas em perigo,
não devem ser esquecidos. Durante e depois da guerra, comunidades
e personalidades judaicas expressaram sua gratidão por tudo o que
lhes fora feito, inclusive pelo que Pio XII fizera pessoalmente, ou
por meio de seus representantes, para salvar centenas de milhares
de judeus16. Por essa razão, muitos bispos, sacerdotes, religiosos
e leigos foram honrados pelo Estado de Israel.
Apesar disso, como o Papa João Paulo II reconheceu, ao lado desses
corajosos homens e mulheres, a resistência espiritual e a ação concreta
de outros cristãos não foi a que se poderia esperar de discípulos
de Cristo. Não podemos saber quantos cristãos, em países ocupados
ou governados pelas potências nazistas ou por seus aliados, constataram
com horror o desaparecimento de seus vizinhos judeus, mas não foram
bastante fortes para elevar sua voz de protesto. Para cristãos, esse
grave peso de consciência de seus irmãos e irmãs durante a última
guerra mundial deve ser um apelo ao arrependimento.
Deploramos profundamente os erros e as culpas desses filhos e filhas
da Igreja. Fazemos nosso o que disse o Concílio Vaticano II na Declaração
Nostra Aetate, que de modo inequívoco afirma: "A Igreja... lembrada
do seu comum patrimônio com os judeus, e levada não por razões políticas,
mas pela religiosa caridade evangélica, deplora todos os ódios, perseguições
e manifestações de anti-semitismo, seja qual for o tempo em que isso
sucedeu e seja quem for a pessoa que isso promoveu contra os judeus"18.
Recordamos e fazemos nosso o que o Papa João Paulo II, ao dirigir-se
aos chefes da comunidade judaica de Estrasburgo em 1988, afirmou:
"Reafirmo juntamente convosco a mais firme condenação de qualquer
anti-semitismo e de todo o racismo que se opõem aos princípios do
cristianismo"19. A Igreja católica, portanto repudia toda a perseguição,
em qualquer lugar e em qualquer tempo, perpetrada contra um povo ou
um grupo humano. Ela condena firmemente todas as formas de genocídio,
assim como as ideologias racistas que o tornaram possível. Ao dirigir
o olhar para este século, sentimo-nos profundamente tristes pela violência
que atingiu povos inteiros e nações. Recordamos, de modo particular,
o massacre dos armênios, as inúmeras vítimas na Ucrânia dos anos 30,
o genocídio dos ciganos – fruto também de idéias racistas – e tragédias
semelhantes ocorridas na América, na África e nos Bálcãs. Não nos
esquecemos também dos milhões de vítimas da ideologia totalitária
na União Soviética, na China, no Camboja e em outros lugares. Não
podemos sequer esquecer o drama do Oriente Médio, cujos termos são
bem conhecidos. Enquanto fazemos a presente reflexão, "muitos homens
continuam a ser vítimas dos próprios irmãos"20.
Olhando Juntos para um Futuro Comum
Olhando para o futuro das relações entre judeus e cristãos, em primeiro
lugar pedimos a nossos irmãos e irmãs católicos que renovem a consciência
das raízes judaicas de sua fé. Pedimo-lhes que recordem que Jesus
era um descendente de Davi; que do povo hebraico nasceram a Virgem
Maria e os Apóstolos; que a Igreja haure sustento das raízes daquela
boa oliveira na qual foram enxertados os ramos da oliveira selvática
dos gentios (cf Rm 11,17-24); que os judeus são nossos caros e amados
irmãos, e que, em certo sentido, são verdadeiramente "nossos irmãos
maiores"21.
No termo deste milênio, a Igreja católica deseja exprimir sua profunda
tristeza pelas faltas a seus filhos e filhas em todas as épocas. Trata-se
de um ato de arrependimento (teshuva): como membros da Igreja, de
fato compartilhamos tanto os pecados como os méritos de todos os seus
filhos. A Igreja aproxima-se, com profundo respeito e grande compaixão,
da experiência do extermínio, o Shoah, sofrida pelo povo judeu durante
a Segunda Guerra Mundial. Não se trata de simples palavras, mas de
um empenho vinculativo: "Correríamos de novo o risco de fazer morrer
as vítimas das mais atrozes mortes, se não tivéssemos a paixão da
justiça nem nos empenhássemos, cada um segundo as próprias capacidades,
em fazer com que o mal não prevaleça sobre o bem, como aconteceu com
milhões de filhos do povo judeu... A humanidade não pode permitir
que isso aconteça de novo"22.
Pedimos que nossa tristeza pelas tragédias que o povo judeu sofreu
em nosso século leve a novas relações com esse povo. Desejamos transformar
a consciência dos pecados do passado em firme empenho por um novo
futuro, no qual já não haja sentimento antijudaico entre os cristãos
nem sentimento anticristão entre os judeus, mas sim um respeito recíproco
compartilhado, como convém àqueles que adoram o único Criador e Senhor
e têm um comum pai na fé, Abraão.
Por fim, convidamos os homens e as mulheres de boa vontade a refletirem
profundamente sobre o significado do Shoah. As vítimas, em seus túmulos,
e os sobreviventes, pelo testemunho de quanto sofreram, tornaram-se
um forte clamor que chama a atenção da humanidade. Recordar este terrível
drama significa tomar plena consciência da advertência salutar que
ele comporta; jamais se deve consentir que as sementes infectadas
pelo antijudaísmo e pelo anti-semitismo criem raízes no coração do
homem.
16 de março de 1998
Cardeal Edward Idris Cassidy
Presidente
Dom Pierre Duprey – Bispo Titular de Thibaris
Vice-Presidente
Pe. Remi Hoeckman, OP
Secretário
Notas de Rodapé
João Paulo II, Carta Apostólica Tertio millennio adveniente (10/11/1994),
33: AAS 87 (1995) 25.
Cf. João Paulo II, Discurso por ocasião do encontro com a comunidade
judaica da cidade de Roma (13/3/1986), 4: AAS 78 (1986), 1120.
João Paulo II, Angelus de 11/6/1995: Insegnamenti 18/1, [1995], 1712.
Cf. João Paulo II, Discurso à comunidade judaica de Budapeste (18/8/1991),
4: Insegnamenti 14/2, [1991], 349.
João Paulo II, Carta Encíclica Centesimus annus (1/5/1991), 17: AAS
83 (1991), 814-815.
Cf. João Paulo II, Discurso aos Delegados das Conferências Episcopais
para as Relações com o Judaísmo (6/3/1982): Insegnamenti 5/1, [1982],
743-747.
Cf. Comissão da Santa Sé para as relações religiosas com os judeus,
Notas sobre o correto modo de apresentar os judeus e o judaísmo na
pregação e na catequese na Igreja católica romana (24/6/1985) VI,1:
Ench. Vat. 0, 1656.
João Paulo II, Discurso aos participantes no encontro sobre "Raízes
do antijudaísmo em ambiente cristão" (31/1097),
1: L’Osservatore Romano, ed. Port. De 8/11/1997, p.4.
Cf. Nostra aetate, 4.
Cf. B. Statiewski (org.), Akten deutsher Bischöfe über die Lage der
Kirche, 1933-1945, vol. I, 1933-1934 (Mainz 1968), Apêndice.
Cf. L. Volk, Der Bayerishe Episkopat und der Nationalsozialismus 1930-1934
(Mains 1966), pp. 170-174.
14 de março de 1937: AAS 29 (1937), 145-167.
La Documentation Catholique, 29 (1938), col. 1460.
AAS 31 (1939), 413-453.
Ibid., 449.
Organizações e personalidades judaicas representativas várias vezes
reconheceram oficialmente a sabedoria da diplomacia do Papa Pio XII.
Por exemplo, na quinta-feira, 7 de setembro de 1945, Giuseppe Nathan,
comissário da União das Comunidades Israelitas Italianas, declarou:
"Em primeiro lugar, dirigimos uma reverente homenagem de reconhecimento
ao Sumo Pontífice, aos religiosos e às religiosas que, atuando as
diretrizes do Santo Padre, não viram nos perseguidos senão irmãos,
e com impulso e abnegação prestaram sua obra inteligente e eficaz
para nos socorrer, não tendo medo dos gravíssimos perigos a que se
expunham" (L’osserv. Rom. Ed. Quot. De 8/9/1945, p.2). No dia 21 de
setembro do mesmo ano, Pio XII recebeu o dr. ª Leo Kubowitzki, secretário-geral
do World Jewish Congress, em audiência para apresentar "ao Santo Padre,
em nome da União das Comunidades Israelitas, os mais sentidos agradecimentos
pela obra realizada pela Igreja católica a favor da população judaica
em toda a Europa durante a guerra" (L’osserv. Rom. Ed. Quot. de 23/9/1945,
p.1). Na quinta-feira, 29 de novembro de 1945, o papa recebeu cerca
de 80 delegados dos refugiados judeus, provenientes dos campos de
concentração na Alemanha, que vieram manifestar-lhe "a suma honra
de poder agradecer pessoalmente ao Santo Padre sua generosidade demonstrada
para com eles, perseguidos durante o terrível período nazifascismo"
(L’osserv. Rom. Ed. quot. De 30/11/1945, p.1). Em 1958, por ocasião
da morte do papa Pio XII, Golda Meir enviou uma eloqüente mensagem:
"Compartilhamos a tristeza da humanidade... Quando o terrível martírio
se abateu sobre nosso povo, a voz do papa elevou-se em favor de suas
vítimas. A vida de nosso tempo foi enriquecida por uma voz que falou
claramente sobre as grandes verdades morais, acima do tumulto do conflito
cotidiano. Choramos um grande servidor da paz".
Cf. João Paulo II, Discurso ao Embaixador da República Federal da
Alemanha (8/11/1990), 2: AAS 83 (1991), 587-588.
N. 4.
N. 8: Insegnamenti 11/3, [1988], 1134.
João Paulo II, Discurso aos membros do Corpo Diplomático (15/1/1994),
9: AAS 86 (1994), 816.
João Paulo II, Discurso por ocasião do encontro com a comunidade judaica
da cidade de Roma (13/4/1986), 4: AAS 78 (1986), 1120.
João Paulo II, Discurso por ocasião da comemoração do Holocausto (7/4/1994),
3: Insegnamenti 17/1, [1994], 897 e 893.
São Paulo, Loyola, 1998