Cristianismo
e Judaísmo
Visão Histórica e Teológica
Cardeal Carlo Maria Martini
A Época do Novo Testamento
O Período Medieval
Raízes Comuns
Esperança e Objetivo Comuns
A Época do Novo Testamento
O Cristianismo, nas suas origens, está profundamente enraizado no
Judaísmo. Portanto, é impossível compreender o Cristianismo sem uma
sincera sensibilidade ao Mundo Judaico e uma experiência direta de
sua realidade. Jesus é plenamente judeu, os apóstolos são judeus,
e não se pode duvidar da ligação deles com as tradições de seus antepassados.
Anunciando e inaugurando a Páscoa messiânica, Jesus, redentor universal
e o servo sofredor, não o fez em oposição à Aliança do Sinai. É verdade,
encontramos polêmicas anti-judaicas no Novo Testamento. Elas têm que
ser compreendidas em níveis diferentes:
1. Em nível histórico, podem ser vistas a partir do ambiente de divergências
sectárias entre diferentes grupos (Fariseus, Saduceus, Qumranitas,
Essênios).
2. Em nível teológico, o termo "os Judeus", sobretudo como encontramos
no Evangelho de João, é uma categoria usada para descrever qualquer
pessoa que recusa a salvação.
3. Em nível escatológico, a meta das estruturas que decorrem da Aliança
pode ser vista como busca premente do Reino, quando Deus reinará "acima
de todos e em todos."
4. Em nível eclesiástico, essas polêmicas são uma reação às exigências
apresentadas por judaisantes entre os cristãos vindos do paganismo.
Tudo isto não significa, no entanto, que o Cristianismo e o Novo Testamento
tenham tido, em suas origens, um caráter anti-semita.
O Período Medieval
Em estudo exaustivo, Poliakov mostrou que, até as Cruzadas, a situação
dos Judeus na Europa era, em geral, de coexistência serena com a população
cristã. Uma reviravolta brutal e sangrenta foi provocada pelas massas
fanáticas que se levantaram juntamente com os exércitos enviados à
Terra Santa, tornando-se responsáveis por massacres ferozes de comunidades
judaicas inteiras na Alemanha, sem que bispos e condes tomassem uma
posição contrária. Aos judeus foi deixada apenas a escolha entre o
batismo e o martírio, e aos milhares eles escolheram o último, proclamando
sua fidelidade a Deus. Depois de 1144, começou a circular a acusação
de assassínio ritual. Mais tarde, veio a acusação de uma conspiração
judaica cheia de ódio contra a raça humana, sendo que os judeus já
eram malditos porque "mataram Deus". As conseqüências foram muito
graves, especialmente no meio mais popular. Os judeus passaram a ser
vistos virtualmente como um símbolo do mal satânico a ser extirpado,
implacavelmente, a qualquer preço.
Raízes Comuns
Atualmente a totalidade do magistério universal da Igreja, junto com
documentos de conferências episcopais e de igrejas locais, é unânime
ao afirmar que a Igreja e o Povo Judeu estão ligados por uma laço
profundo "em sua própria identidade religiosa".
Na Escritura e na Tradição encontramos estes elementos comuns:
1. A fé que marcou Abraão e os Patriarcas em um Deus que escolheu
Israel por amor irrevogável;
2. A vocação para a santidade ("Sede santos porque Eu sou santo".
Lev 11: 45) e a necessidade de "conversão" (teshubhah) do coração;
3. A veneração pela Sagrada Escritura;
4. A tradição de oração, particular e pública;
5. A obediência à lei moral expressa nos mandamentos do Sinai;
6. O testemunho prestado a Deus pela "Santificação do Nome" no meio
dos povos do mundo, mesmo até o martírio, se necessário;
7. O respeito e a responsabilidade na relação com toda a criação,
zelo que se compromete pela paz e pelo bem de toda a humanidade, sem
discriminação.
Esses elementos comuns ainda são compreendidos e sobrevivem, de maneiras
diferentes, mas profundas, nas duas tradições.
Esperança e Objetivo Comuns
Temos em comum não apenas estas fontes e estes muitos elementos de
nossa caminhada; convergimos também na expressão mesma de nossa finalidade
definitiva. A esperança em um futuro messiânico, quando Deus reinará,
Rei de justiça e de paz; a Fé na ressurreição dos mortos, no julgamento
de Deus rico em misericórdia, na redenção universal - esses são temas
comuns para Judeus e Cristãos.
Baseados nesses princípios - que certamente merecem estudo posterior,
mais atento e mais profundo - já temos muito campo para um responsável
compromisso comum. Especialmente em nível espiritual e ético, no campo
dos direitos humanos e na assistência aos povos e às pessoas que precisam
de solidariedade, cristãos e judeus estarão comprometidos com a paz
e o desenvolvimento integral da humanidade.
E eu acredito que tudo isto se tornará cada vez mais manifesto.
Cardeal
Carlo Maria Martini
Arcebispo de Milão
O texto original, uma versão mais completa desse ensaio foi publicado
em "Jews and Christians" AII, 1990.